Meu primeiro carro foi uma Brasília branca, modelo 1986, que comprei aos 18 anos, de um pintor de paredes. Para realizar o sonho, passei quatro meses juntando o percentual a que eu tinha direito da bilheteria do espetáculo teatral Confissões de Adolescente, onde desempenhava as funções de assistente de produção e de operador de luz. O carro era incrível, tinha um volante enorme, neon azul na parte interna, rádio AM e FM, e, no vidro traseiro, cinco estrelas, uma dentro da outra, que iam brilhando à medida que eu apertava o freio. Eu adorava lotar o carro de amigos e sair sem destino certo. Amava a liberdade de poder ir a qualquer canto sem depender de ninguém; de poder surfar na Prainha, depois ir para o ensaio no Tablado, e à noite me acabar nas festas de Santa Teresa. Quanta alegria aquele carrinho me dava!!!
Mas a compra do primeiro carro aconteceu justamente num período de grandes dúvidas: seguir no mundo das Artes, onde eu já estava desde os 9 anos (em cursos no Colégio Andrews, no Tablado, na Casa de Cultura Laura Alvim...) ou mergulhar na faculdade de Direito, na PUC/RJ (que me seduzia bastante, mas eu não tinha a mínima noção de como seria)? Pensando friamente, com a Arte eu já tinha conseguido comprar um carro, já estava vinculado à peça de maior sucesso no cenário teatral brasileiro da época e, se fosse pelo caminho do Direito, ainda teria que esperar até o sexto período para começar a estagiar e, mesmo assim, com o salário de estagiário, não conseguiria, em quatro meses, comprar uma Brasilia branca, modelo 1986, e ter a felicidade que eu tinha.
Não tomei nenhuma decisão precipitada. Comecei o curso de Direito tocando em paralelo minhas atividades teatrais. Ao invés de abrir mão da Arte pelo Direito, fui fazendo os dois, ao mesmo tempo, para ver o que iria acontecer. Acreditei que o destino se encarregaria de tomar, por mim, o caminho que ele achasse mais adequado.
E foi no segundo período da faculdade que dois fatos bem marcantes aconteceram, simultaneamente, um ná area das Artes e outro na do Direito (não foi bem na do Direito, como veremos adiante).
No campo da Arte, fui convidado para produzir um espetáculo com texto maravilhoso, elenco sublime, polpudo patrocínio e diretor experiente. Tudo para ser um super sucesso e claro que aceitei. No campo do Direito (na realidade está mais para o campo do amor do que para o do Direito), me apaixonei pela filha de um dos maiores juristas do Brasil, que era minha amiga de turma. Claro que dei em cima dela e a convidei para sair.
Os dois fatos acima foram bastante marcantes na minha vida porque extremamente decepcionantes.
Quanto à peça, por mais que todos acreditássemos no seu primor, a crítica de OGlobo, Barbara Heliodora detonou o espetáculo, fazendo com que nós experimentássemos um vergonhoso fracasso de público, acompanhado de grande prejuízo financeiro e de tempo. Até hoje me pergunto como é que pode a crítica achar horrível algo que eu acho muitíssimo bonito? Incompreensível. Mas, por conta disso, acabei pedindo estágio para o meu melhor professor, o de direito civil, Carlos Roberto Barbosa Moreira, e acabei me afastando dos palcos.
Já em relação à minha paixão, depois de beijos no Pilotis da PUC, trabalhos em grupo que viravam tardes de muito sexo, finalmente combinamos um jantar. Cheguei pontualmente ao belo edifício onde ela morava com os pais, pedi ao porteiro para que, pelo interfone (não existia celular naquela época) anunciasse minha presença. Quando ela desceu, muito maquiada, com um figurino de princesa, meio dourado, com bolsa dourada, com acessórios dourados, com luzes douradas no cabelo, a primeira coisa que ela disse, as gargalhadas, quando entrou no meu amado carrinho, comprado sem ajuda de papai, foi que eu devia estar de sacanagem, pois aquilo era uma lata velha.
Conclusão: eu amava uma espetáculo que a principal crítica teatral odiou e me empurrou para o Direito. Eu amava meu carro, mas a menina de quem eu estava gostando, abstraindo-se da maneira de como ela se vestia, tinha vergonha de entrar.
É justamente nessas horas da vida que você se pergunta quem está errado, se é você os outros? E como se deve reagir? ceder um pouco? mudar para agradar os outros ou seguir firme segundo seus valores e princípios, caminhando em direção ao que você acredita?
Não voltei a me encontrar com a aludida menina. Me senti, indevidamente, humilhado e optei por me afastar dela. Passei a tentar me ver do ponto de vista do outro, mas sempre seguir o que o meu coração manda. Me sinto mais feliz e aliviado assim, do que se eu me "vendesse" aos valores que são de terceiros e não meus.
Mas a compra do primeiro carro aconteceu justamente num período de grandes dúvidas: seguir no mundo das Artes, onde eu já estava desde os 9 anos (em cursos no Colégio Andrews, no Tablado, na Casa de Cultura Laura Alvim...) ou mergulhar na faculdade de Direito, na PUC/RJ (que me seduzia bastante, mas eu não tinha a mínima noção de como seria)? Pensando friamente, com a Arte eu já tinha conseguido comprar um carro, já estava vinculado à peça de maior sucesso no cenário teatral brasileiro da época e, se fosse pelo caminho do Direito, ainda teria que esperar até o sexto período para começar a estagiar e, mesmo assim, com o salário de estagiário, não conseguiria, em quatro meses, comprar uma Brasilia branca, modelo 1986, e ter a felicidade que eu tinha.
Não tomei nenhuma decisão precipitada. Comecei o curso de Direito tocando em paralelo minhas atividades teatrais. Ao invés de abrir mão da Arte pelo Direito, fui fazendo os dois, ao mesmo tempo, para ver o que iria acontecer. Acreditei que o destino se encarregaria de tomar, por mim, o caminho que ele achasse mais adequado.
E foi no segundo período da faculdade que dois fatos bem marcantes aconteceram, simultaneamente, um ná area das Artes e outro na do Direito (não foi bem na do Direito, como veremos adiante).
No campo da Arte, fui convidado para produzir um espetáculo com texto maravilhoso, elenco sublime, polpudo patrocínio e diretor experiente. Tudo para ser um super sucesso e claro que aceitei. No campo do Direito (na realidade está mais para o campo do amor do que para o do Direito), me apaixonei pela filha de um dos maiores juristas do Brasil, que era minha amiga de turma. Claro que dei em cima dela e a convidei para sair.
Os dois fatos acima foram bastante marcantes na minha vida porque extremamente decepcionantes.
Quanto à peça, por mais que todos acreditássemos no seu primor, a crítica de OGlobo, Barbara Heliodora detonou o espetáculo, fazendo com que nós experimentássemos um vergonhoso fracasso de público, acompanhado de grande prejuízo financeiro e de tempo. Até hoje me pergunto como é que pode a crítica achar horrível algo que eu acho muitíssimo bonito? Incompreensível. Mas, por conta disso, acabei pedindo estágio para o meu melhor professor, o de direito civil, Carlos Roberto Barbosa Moreira, e acabei me afastando dos palcos.
Já em relação à minha paixão, depois de beijos no Pilotis da PUC, trabalhos em grupo que viravam tardes de muito sexo, finalmente combinamos um jantar. Cheguei pontualmente ao belo edifício onde ela morava com os pais, pedi ao porteiro para que, pelo interfone (não existia celular naquela época) anunciasse minha presença. Quando ela desceu, muito maquiada, com um figurino de princesa, meio dourado, com bolsa dourada, com acessórios dourados, com luzes douradas no cabelo, a primeira coisa que ela disse, as gargalhadas, quando entrou no meu amado carrinho, comprado sem ajuda de papai, foi que eu devia estar de sacanagem, pois aquilo era uma lata velha.
Conclusão: eu amava uma espetáculo que a principal crítica teatral odiou e me empurrou para o Direito. Eu amava meu carro, mas a menina de quem eu estava gostando, abstraindo-se da maneira de como ela se vestia, tinha vergonha de entrar.
É justamente nessas horas da vida que você se pergunta quem está errado, se é você os outros? E como se deve reagir? ceder um pouco? mudar para agradar os outros ou seguir firme segundo seus valores e princípios, caminhando em direção ao que você acredita?
Não voltei a me encontrar com a aludida menina. Me senti, indevidamente, humilhado e optei por me afastar dela. Passei a tentar me ver do ponto de vista do outro, mas sempre seguir o que o meu coração manda. Me sinto mais feliz e aliviado assim, do que se eu me "vendesse" aos valores que são de terceiros e não meus.
Muito interessante o texto.
ResponderExcluirVocê cedeu à crítica e optou pelo estágio. Só que nada é definitivo, você pode voltar à Arte a qualquer momento, já que você não cedeu à arte, mas apenas à crítica. E daí você pode concluir que não existe destino, é tudo consequência das nossas escolhas.
É bom nos afastarmos de quem nos machuca. Mas acredito que você não se veja do ponto de vista do outro. Quando a gente se vê pelo ponto de vista do outro, inevitavelmente a gente muda. Isso que você disse me pareceu um grande autoengano. Se você não muda em nada após se ver pelo ponto de vista do outro, é porque o que você viu foi apenas o que você acha que o outro tem que pensar de você. Você não viu através do outro, mas sim através do seu ego (que nada mais é que a imagem que acreditamos que os outros têm sobre nós mesmos). E seus atos seguem apenas você como referência. Se me permite dizer, isso é perigoso porque esse autoengano pode te levar a uma postura arrogante.
Bom o texto.