Reconheço que fui bastante ousado, ao final do enterro da minha avó, quando, logo após as orações, pedi a atenção das cerca de 100 pesoas presentes naquela tarde fria de Porto Alegre para prestarem as últimas homenagens àquela imigrante da Polônia, que, mesmo tendo desembarcado no Brasil (fugida da guerra) bem nova, nunca conseguiu aprender corretamente o português, mantendo um carregadíssimo sotaque até a morte, ocorrida com mais de 90 anos.
Minha fala não estava no script. Eu mesmo me assustei com o meu ímpeto; com a forte necessidade que me surgiu de revelar, publicamente, aquela que talvez tenha sido a grande lição deixada pela minha avó, e que eu demorei tantos anos para aprender.
A Minha família e os amigos respeitaram meu pedido, voltando os olhos atentos para mim, curiosos com o que eu iria dizer. Respirei fundo e, de improviso, soltei o que estva entalado no peito:
“Hoje, família e amigos se reúnem aqui para a despedida da minha avó, da minha querida bobele, como eu a chamava. Por motivos óbvios, hoje é um dia triste, mas fica o consolo, se é que existe algum consolo para a morte de um ente querido, de que estamos nos despedindo de uma pessoa que viveu muito mais do que a média. Confesso que, no meu caso, a tristeza se mistura com uma grande e vergonhosa dose de culpa, por dois motivos: primeiro porque, por morar no Rio de Janeiro, meu contato com a minha avó foi muito pequeno, resumido-se às férias escolares. Segundo, porque nos raros e rápidos momentos que pude desfrutar da companhia dela, cometi o gravíssimo erro de debochar do seu sotaque carregado, da sua fragilidade, do seu modo de falar português errado, da sua desconfiança das pessoas, das suas manias, e de não reconhecer o valor dos seus atos e ensinamentos. Lembro-me de que passei anos e anos avacalhando a minha avó porque, aos 8 ou 10 anos, ela surgiu no meu quarto com um saco plástico das Lojas Brasileiras dizendo: – Ricardiiinha ô vôvó trazer uma presente para você. Exultante, como toda criança que vai ganhar presente, pulei da cama, agarrei o saco que minha avó trazia nas mãos, retirei o pacote que havia lá dentro, rasguei o papel e... . Frustração. Não era brinquedo, mas uma caixa de bombons. Melhor que nada. Só que minha avó, e não eu, foi quem abriu a tampa da caixa, pedindo para mim o seguinte: – Tira uma bombom, quando você quiser outra bombom pede para ô vôvó, amanhà. Nova frustração. Ué!! Pensei eu, não é um presente para mim? A caixa de bombom não me pertence? Deveria ficar comigo. Deveria ser minha. Eu Deveria administrar meu presente e comer quantos bombons eu desejasse, na hora que eu bem entendesse. Passei anos, repito, avacalhando minha avó por conta desse fato, imaginando que ela era egoísta e turrona. Somente décadas mais tarde, quando eu já estava com os meus 30 anos, percebi que atrás daquele episódio da caixa de bombons existia uma sabedoria, com diversas lições importantes para a vida. Pois bem, minha avó perdeu toda a família na guerra. Minha avó imigrou, forçada, para um país com cultura, hábitos e língua diferentes das que ela estava acostumada. Minha avó foi obrigada a esconder a sua religião, por medo de perseguição. Minha avó ficou viúva. Minha avó não fez faculdade, mal frequentou o colégio. Assim, com tantas dificuldades, surge uma pergunta difícil de responder: com qual ânimo ou alegria uma pessoa que sofreu o que ela sofreu, consegue chegar aos 90 e poucos anos? Hoje, aqui nesse enterro, não existe uma só pessoa que tenha passado ou chegado perto dos apertos experimentados pela minha avó, mas eu garanto que 90% de vocês, me incluindo no grupo, reclamam da vida. Hoje eu entendo que minha avó só chegou aos 90 anos porque, apesar das dores, ela sempre manteve um desejo aceso, sempre manteve um bombom para o amanhã, para o dia seguinte. Hoje eu entendo que se eu comesse a caixa inteira de bombons, teria uma desagradável indigestão, perderia meu desejo, e a vida não teria graça. Por outro lado, fica a lição de que a vida, assim como uma caixa de bombons, oferece um cardápio com diversas oportunidades e, se formos afobados, não saberemos qual bombom escolher. Pior, na pressa de se salvar de medos invisíveis, corremos o risco de escolher o bombom errado e estragar todo o resto da nossa história. Reconheço, somente agora, que minha avó queria me ensinar uma das coisas mais difíceis da vida: o equilibrio, a prudência, a calma, o tão desejado caminho do meio. Ela queria me transmitir que desejos e afetos, por uma caixa de bombons, ou em todos os campos da vida, podem ser frustrados. E quase sempre são. Parece óbvio, mas não aceitamos que não temos ou podemos ter tudo aquilo que queremos. Por isso, hoje eu posso afirmar, sem qualquer medo de errar, que mesmo tendo passado por inúmeras dificuldades e privações, estamos nos despedindo de uma pessoa que foi muito além do esperado, de forma extremamante original e simples, conseguindo viver uma vida absolutamente feliz. Hoje aprendi que o segredo da alegria e da longevidade da minha avó está no fato de que ela compreendeu que o importante não é satisfazer o desejo, mas estar sempre desejando, até o fim da vida, o delicioso bombom que nos espera para ser devorado amanhã. Bobele, obrigado pela lição.”
