Naquela sexta, meus amigos fizeram o seguinte: Marcelo foi arrastado por uma estagiária para uma festa à fantasia. Lúcia, que tinha combinado de ir beber e escutar música na casa de amigos, acabou indo jantar com os avós e depois voltou para casa. Fábio estava jogando baralho no Country Club, mas, depois da quinta rodada, foi, com os demais jogadores, dançar forró na Feira de São Cristóvão. Já Anita, coitada, só conseguiu levantar do cochilo preparatório para encarar a noite lá pelas quatro horas da manhã, mas, mesmo assim, saiu de carro para ver o movimento nas portas das boates. Quando todos retornaram para suas casas, ficaram horas e horas na Internet; seja navegando pelas mais inusitadas páginas, seja conversando com um estranho protegidos por um apelido.
Conheço pessoas que adorariam jogar pedra na Internet se a vissem passeando na rua. Conheço também os que a endeusam e conseguem ter orgasmos com ela. Os que a odeiam falam que ela é alienante, elitista e insensível, porque o conhecimento por ela adquirido é virtual, aparente, e não chegaria aos pés do conhecimento alcançado através do contato real. Não posso deixar de concordar com esta ponderação. Por outro lado, não se pode menosprezar o prazer do internauta que, da sua casa ou escritório, compra ingressos para espetáculos, mexe na sua conta bancária, faz pesquisas acadêmicas…
Devido à brutal quantidade de trabalho da semana, decidi que o melhor programa para aquela sexta-feira seria ficar relaxando na poltrona do meu quarto. O cansaço, os três copos de vinho tinto e o trompete do Miles Davis fizeram com que minha mente me trouxesse lembranças e imagens da minha primeira paixão. Com oito anos, mudei da antiga escola para o Colégio Andrews. No primeiro dia de aula, uma linda loirinha de olhos azuis percebeu meu natural desconforto por não conhecer ninguém e me levou pela mão para perto dos demais colegas da turma.
Passamos toda a alfabetização sem desgrudarmos um do outro. Ficávamos juntos na sala, no recreio, nos passeios ao zoológico. Com grande seriedade dizíamos para todos, inclusive para nossos pais, que éramos namorados. À noite, eu sonhava com ela.
Curiosamente, por causa da pouca idade, nunca nos beijamos, nunca dissemos ‘eu te amo’ um para o outro, nunca fomos ao cinema, jantar ou viajar… Com certeza, a maior intimidade que tivemos foi logo no primeiro dia de aula, quando ela pegou na minha mão. Lembro que uma das coisas mais legais que vivemos juntos foi o passeio que a escola promoveu até o lugar onde era filmado o programa de televisão “Sítio do Pica Pau Amarelo”. No ônibus, ela disse que naquele dia queria ser a Emília, e eu seria o Pedrinho. Nós nos divertimos tanto, que, no retorno para a escola, acabamos adormecendo um recostado no outro.
Ocorre que, infelizmente, ela era filha de diplomata, e, no final do ano, de um dia para o outro, um mês antes de acabarem as aulas, seu pai foi transferido, e nunca mais a vi. Hoje, 29 anos depois, muitas outras histórias de amor sucederam a primeira, mas Bel é um nome que sempre me vem à mente, e que nunca esquecerei, porque foi a primeira ‘mulher’ a me mostrar que existem sentimentos nobres e refinados que justificam o viver.
De repente, voltei do mundo dos sonhos para a solidão do meu quarto com uma idéia tão arrebatadora que o cansaço foi embora. Voei para cima do computador, entrei na Internet, digitei o nome dela em uns três endereços de busca e comecei a sorrir. É óbvio que eu não gostava mais dela. Conseguir encontrá-la, 20 anos depois de ela ter ido embora, iria trazer-me grande conforto. Significaria que eu não precisaria ficar aflito todas as vezes que sentisse saudades de alguém que sumiu pelo mundo, porque, quando quisesse, facilmente eu poderia encontrar a pessoa.
Incrível. A experiência deu certo. Encontrei o nome da Bel num site de uma galeria de arte inglesa que a anunciava como uma das expositoras do próximo mês. Não contente, telefonei para a tal galeria em Londres me apresentando como um repórter que estava preparando uma matéria sobre artistas brasileiros. Consegui o telefone dela e liguei.
¾ Hello. ¾ atendeu uma mulher com voz de sono.
¾ Bel, é você?
¾ É..., quem é?
¾ Você vai achar uma grande loucura, mas quem está falando é o Paulo. A última vez que nos vimos foi em 1980, no colégio
¾ Paulinho!!?? O meu Paulinho? ¾ disse ela com uma mistura de espanto e ternura ¾ Meu Deus, quanto tempo!! Como é que você me encontrou?
¾ Internet e um pouco de cara de pau. Foi tudo muito rápido. Cheguei em casa cansado do trabalho, abri uma garrafa de vinho, botei um cd para tocar, comecei a pensar em pessoas que sumiram. Pensei em você; aliás, eu sempre pensei em você, daquela excursão ao ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’, e todas as descobertas daquele ano.
Sorrindo bastante ¾ Lembro, é claro.
¾ Daí me bateu a curiosidade de saber o que a vida tinha feito de você. Descobri o seu nome no site de uma galeria de arte, liguei para lá dizendo que era um repórter brasileiro interessado em fazer uma matéria com você, e eles me deram seu número…
Ficamos uns 20 minutos no telefone e depois ela sugeriu que conversássemos pela Internet, para economizar o custo da ligação internacional. Foi ótimo, ficamos mais três horas relembrando aquele ano marcante. Bel me contou a história da vida dela: que estava casada há seis anos e grávida do terceiro filho; que uma vez por ano vinha ao Brasil visitar os pais; que era professora de arte em Cambridge e que vinha se destacando na carreira de pintora. Antes de nos despedirmos, trocamos nossos dados, e ela me contou que possuía, arquivado no seu computador, uma foto de cada quadro dos inúmeros que já havia pintado. Disse que existia um chamado ‘Amor’ que desejava me mandar por e-mail. Em 30 segundos, a caixa de entrada anunciou a chegada da mensagem de Bel: “eu pintei há uns oito anos pensando em você”. Abri o arquivo anexado, e a imagem me arrepiou. Lacrimejei de emoção. Em tons pastéis, o quadro retratava um menino e uma menina, no pátio de uma escola, recostados um no outro, num sono sereno.
Que lindo!! Chorei :)
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