terça-feira, 3 de maio de 2011

CAIXOTE AZUL

  Raul deixou escorrer pelo pescoço algumas gotas do velho perfume “Paco Rabane” e, de frente para o espelho, para conseguir enxergar o vigoroso homem de outrora, tentou abstrair-se das marcas que o tempo havia talhado no seu rosto. Deu o retoque final na gola da camisa que havia comprado especialmente para aquela ocasião: uma tradicional “Lacoste” azul. Eram 14hs e ele estava pronto.
     Soltou uma gutural gargalhada nada compatível com um homem que teve a vida marcada por uma desagradável sucessão de desencontros afetivos. Estava com 65 anos mas aparentava 50 e, há poucos meses, chegara à desagradável constatação de que estava envelhecendo solitariamente. Vivera movido pelo amor, casou-se, teve filhos e enviuvou de uma mulher que, muito embora ele tenha gostado bastante, não foi a que mais amou.
Quem o conhecia jamais diria que ele era um camarada solitário, porque sabe-se que homens irreverentes, criativos e cultos sempre têm uma boa companhia. Além do mais, ele era um grande conhecedor da alma humana e seu discurso fascinava. 
Naquele dia, ele pôs em prática, com ajuda do Custódio, o garçom que testemunhou inúmeras de suas patuscadas ¾ e há algum tempo se esforçava em devolver o bom humor ao amigo ¾, uma brincadeira que trouxe grande confusão ao já confuso centro da cidade. Ele fez publicar, na primeira página de todos os jornais cariocas, somente pela farra de ver o que aconteceria, o anúncio que dizia: “sou empresário, bem posicionado, tenho 38 anos, e estou interessado em conhecer uma mulher na minha faixa de idade que esteja disposta a um relacionamento sério. Hoje, as 16:00 hs, estarei na confeitaria Colombo com um caixote azul, as interessadas em me conhecer deverão comparecer com um caixote rosa”.
Se um dia fosse indagado do porquê dos caixotes, Raul responderia que sua intenção era a de materializar, numa espécie de depósito, todos os sentimentos pendentes ou mal resolvidos que cada pessoa acumula por toda a vida.
Chegou à confeitaria uma hora adiantado. Custódio rapidamente o instalou numa mesa de dois lugares, ao fundo, em cima de um tablado de onde se podia ter uma visão privilegiada da entrada. Devidamente acomodado, pediu um chá de camomila para tentar diminuir a gostosa ansiedade que lhe tomara, semelhante com a dos moleques que receiam ter sua traquinagem descoberta.
Mesmo sabendo que o amigo tinha a intenção de ficar no anonimato, Custódio, de implicância, por detrás do balcão, ergueu um caixote azul que disse ter separado para a eventualidade de surgir uma mulher interessante. Custódio desejava, desde os preparativos iniciais daquele estranho espetáculo, na hipótese de aparecer alguma mulher escandidamente bela, entregar-lhe um caixote azul contendo a verdadeira identidade do amigo e ajudá-lo a sair da solidão. Esta idéia foi veementemente proibida por Raul que, àquela altura, começava a sentir medo dos desdobramentos da sua insólita brincadeira.
Agora, no entanto, era tarde para qualquer pudor, o espetáculo já se iniciara.
As 15hs uma equipe de repórteres chegou à confeitaria. Custódio os recebeu e soube que estavam ali para desvendar a identidade do irreverente sedutor que havia pago por aquele inédito classificado. As 15:40hs, duas mulheres, de uma feiura medonha, começaram a zanzar pela porta da confeitaria, cada uma com um pequeno caixote rosa na mão. Várias outras mulheres foram chegando, algumas bem vestidas, outras bem vulgares, todas com seu caixote rosa sendo displicentemente carregado. Custódio, fingindo estar servindo mais água para o chá de Raul, curvou-se para perto do ouvido do amigo e desabafou: “Eu falei para tirar o 'bem posicionado' do anúncio, são todas umas putas".
Na ausência do principal alvo de sua entrevista, os repórteres atacaram as pretendentes. Estas, por sua vez, deixavam-se fotografar sem qualquer cerimônia e, pelas respostas oferecidas aos entrevistadores, constatou-se que Custódio havia formado um errado juízo das candidatas. Parecia, realmente, que elas não estavam ali por dinheiro, ao contrário, mostravam-se carentes de afeto, de paixão, de sentirem-se amadas com a mesma intensidade que as personagens dos filmes.
 Atônito com as proporções que sua brincadeira havia tomado, Raul começou a fazer uma auto-análise e a concluir que: o solitário é um despudorado que aceita qualquer convite que possa livrá-lo do deserto que o aflige. Muita gente boa, para dar um basta na sua solidão, já tomou espantosas decisões: mudaram de país; tomaram anabolizante, tiveram um filho; aceitaram, depois de velho, o convite para uma relação gay; largaram a família para retomar uma paixão do passado... Há, até, quem tenha depositado as esperanças do fim da sua solidão numa guerra; na compra de um carro importado zerinho; na acumulação de muito dinheiro e poder; no suicídio. Porque, então, eu não poderia fazer aquela brincadeira para tentar, por algumas horas, viver algo mais divertido do que a solidão?
De repente, um grande alvoroço se formou. Dois homens, simultaneamente, um bem jovem e o outro de mais idade, surgiram exibindo caixotes azuis. Ensandecidas, as mulheres os cercaram e iniciaram uma grande briga com os repórteres, que queriam entrevistá-los antes que qualquer pessoa deles se aproximasse. Raul e Custódio sentiram um estranho prazer com aquela mixórdia em frente à confeitaria. Este prazer aumentou ainda mais, quando os falsos anunciantes foram desmascarados. O mais velho, de forma arrogante, alegou possuir os recibos que os jornais haviam lhe dado quando do pagamento pelos anúncios, mas não os apresentou e perdeu a confiança de todos. O mais novo, por sua vez, disse que era o verdadeiro anunciante porque o classificado deixava claro que o homem em questão tinha 38 anos. Como não aparentava ter mais do que 17 anos, ninguém acreditou no seu papo furado. Começou um empurra empurra entre os dois, e a coisa só não ficou mais séria porque a polícia interveio deslocando a confusão da calçada para a delegacia.
Após este episódio, iniciou uma chuvinha miúda que dispersou a todos. As mulheres, repórteres, curiosos e o próprio gerente da confeitaria, que não chegou a desconfiar da participação de Custódio naquele episódio, concluíram que tudo não passara de um trote e voltaram para suas tarefas.
 Vitorioso, mas retornando para sua solidão, Raul pôde degustar sua última xícara de chá. Tinha o semblante sério, mas sorria por dentro. Com exceção de Custódio, ninguém jamais poderia saber que ele tinha criado tal divertimento, às custas da boa fé de tantas pessoas.
 Nada mais o prendia ali, e decidiu ir embora. Antes, contudo, de olhar o valor da conta que já estava sobre a mesa, ele foi surpreendido por uma visão que acelerou sua respiração, e fez seu coração dar, num único segundo, mil voltas dentro do peito. Chegou a cogitar que aquela imagem era um castigo divino pela brincadeira de mau gosto com as moças que passaram por ali com caixotes rosas. Não era crível que, depois de tantos anos de saudade contida, a mulher que ele mais amou na vida, e que havia sumido pelo mundo há mais de 35 anos, estava ali, parada na porta da Confeitaria Colombo, ressurgida sabe-se lá de onde, e muito bonita, muito viva e brilhante... Raul, com muita aflição, procurou por Custódio, mas não o encontrou. Como um adolescente, encolheu-se entre a mesa e sua cadeira para, de soslaio, ficar observando o que ela iria fazer. A imagem daquela mulher lhe trouxe à memória a lembrança dos dias mais felizes de sua vida. Mesmo sem conseguir reagir diante da catarse de sentimentos ocasionado pela aparição daquela mulher, Raul, com muita precisão, relembrou do gosto da sua pele, do seu cheiro, das vezes mais marcantes que se amaram e, principalmente, do seu olhar afetuoso e da grande cumplicidade que tiveram enquanto juntos.
   Raul não sabia se acenava ou se deixava ela encontrar a pessoa por quem procurava. Tomou coragem, levantou-se e fixou seus olhos nos olhos dela que, muito séria, mas com a mesma ternura de anos atrás, também fixou seus olhos nos dele. Infinitos sentimentos foram trocados por ambos durante aquele infinito olhar. Raul, que não estava preparado para encontrá-la, ousou fazer um pequeno gesto a convidando para sentar-se. Ela esboçou um tímido sorriso, respirou fundo e, bem devagar, parecendo estar com tanto medo quanto ele, sentou-se à mesa. Tentando agir naturalmente, de forma que ela não notasse que sua presença o deixava alterado, Raul realizou que o tempo é fictício para os assuntos dos sentimentos e que ele amava aquela mulher mais do que qualquer outra coisa no mundo. Admirando o rosto de Raul, trêmula como uma adolescente que dá seu primeiro beijo, ela abriu sua pequena bolsinha, tirando de dentro um caixotinho rosa em forma de coração, e colocado-o sobre a mesa. Raul percebeu que deveria abri-lo, e no conteúdo da caixa, encontrou um bilhete que dizia: “Desculpe-me pelo desencontro de nossas vidas. Sempre te amei”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário