O Bagaceiro
Devaneios
domingo, 7 de setembro de 2014
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
TERNO E GRAVATA NO VERÃO É UMA ESTUPIDEZ!!
Sou advogado. Logo, sou obrigado a usar terno e gravata todos os dias da semana, conforme determina a regra forense; a etiqueta forense. Mas moro no Brasil, onde na maior parte do território é verão o ano inteiro, com temperatura acima dos 30 graus, o que torna o uso dessa indumentária insuportável, um autoflagelo. Não faz sentido! É ilógico! Falando na linguagem dos juristas [para ver se assim me faço ouvir]: Excelentíssimo Senhor Desembargador, Ínclito membro do Ministério Público, Nobres Colegas, TERNO E GRAVATA FEREM O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL QUE PROTEGE A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. Steve Jobs, por exemplo, não usava terno!! Bill Gates, Eike Batista, Mark Zuckerberg são homens importantes e eventualmente aparecem de terno e gravata!!.
O que mais me espanta, no entanto, é que ninguém, absolutamente ninguém percebe que de nada adianta fazer Horário de Verão e manter a obrigatoriedade do terno, porque se de um lado ganhamos certa economia adiantando uma hora do relógio, de outro, com o uso do casacão, suamos mais, aumentando a chance de gripe por conta do ar condicionado que também será mais utilizado nos escritórios, carros, quartos, salas de espera... gastando mais energia [aquela que tentamos poupar com o Horário de Verão], lavamos mais as roupas, tomamos mais banho, gastamos mais sabão, consumimos mais água. Enfim, além do aspecto humano, pelo aspecto econômico e ecológico, terno e gravata são uma desgraça.
Vamos abolir o terno. Vamos queimar as gravatas, e inventar algo moderno, cuja utilização não seja um sofrimento!! Porque como disse o nosso querido poetinha VINÍCIUS DE MORAIS: "Detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata."
O que mais me espanta, no entanto, é que ninguém, absolutamente ninguém percebe que de nada adianta fazer Horário de Verão e manter a obrigatoriedade do terno, porque se de um lado ganhamos certa economia adiantando uma hora do relógio, de outro, com o uso do casacão, suamos mais, aumentando a chance de gripe por conta do ar condicionado que também será mais utilizado nos escritórios, carros, quartos, salas de espera... gastando mais energia [aquela que tentamos poupar com o Horário de Verão], lavamos mais as roupas, tomamos mais banho, gastamos mais sabão, consumimos mais água. Enfim, além do aspecto humano, pelo aspecto econômico e ecológico, terno e gravata são uma desgraça.
Vamos abolir o terno. Vamos queimar as gravatas, e inventar algo moderno, cuja utilização não seja um sofrimento!! Porque como disse o nosso querido poetinha VINÍCIUS DE MORAIS: "Detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata."
quarta-feira, 20 de junho de 2012
A FOTO QUE ROUBOU A CENA DA “RIO + 20” E O APEDREJAMENTO PREGUIÇOSO
A foto do congraçamento entre LULA e MALUF conseguiu ter mais efeitos no espírito do cidadão brasileiro que qualquer outro acontecimento da RIO + 20, grandiosíssimo evento que trouxe ao país centenas de chefes de estado e prefeitos de cidades do mundo inteiro. Não são necessárias muitas linhas para descrever quem é MALUF, basta observar que ele é procurado pela INTERPOL, e isso é o suficiente para se concluir o tipo de pessoa de que se está se falando. Quanto ao LULA, depois de 8 anos como presidente mais popular da história da nação, ele, como forma de agradecimento pela rápida recuperação de um inoportuno câncer, ao invés de ficar mais retraído e humilde, voltado ao bem comum, ressurgiu mais atrevido do que nunca, polemizando com o Ministro do STF, Gilmar Mendes, e atuando no cenário político brasileiro da forma mais atabalhoada possível, como é o caso da aliança com MALUF.
Da forma como LULA age, parece que ele jamais daria crédito a Deus pela cura da sua doença, porque ele próprio se vê como Deus. E é esse o ponto que me causa perplexidade, porque não é somente o LULA, mas a maioria da população brasileira o trata como se ele fosse uma entidade ubíqua e divina.
Erra, a meu ver, quem trata LULA como se ele fosse onipotente, imbatível, dono do Partido dos Trabalhadores. Um equívoco comum, por exemplo, que demonstra a confusão criada em torno da figura do ex metalúrgico, está no fato de que muitos confundem a sua figura com a do PT, quando se sabe que partidos políticos são formados por milhões de militantes, com uma grande pluralidade de ideias. Claro que LULA é um homem extremamente poderoso e influente dentro do PT, mas ele não é o PT. Da mesma maneira que um militar torturador não é o exército, a marinha ou a aeronáutica. Da mesma forma que um advogado antiético não é a OAB; nem muito menos um atleta criminoso não é o seu clube; e, o casal que se separa não representa o casamento.
Mas há, para meu lamento, um hábito bastante comum das pessoas apedrejarem as instituições em função de atos praticados por um de seus integrantes que, de alguma forma, conseguiu notoriedade e, no meio do caminho, cometeu algum deslize. Entendo que o discurso de ódio à instituição (a menos que a instituição seja a favor da intolerância racial, sexual, religiosa e a direitos inerentes ao princípio da dignidade da pessoa humana) é inadequado e está na esfera de um ativismo preguiçoso, que não acrescenta nada.
O engajamento do cidadão dentro da instituição que está sendo tocada sem rumo certo é muito mais construtivo do que a omissão.
Dai, se você gosta do PT, PMDB, PSDB, PSOL..., mas não está feliz com rumo dessas instituições, filie-se e tente fazer a diferença, acompanhado do grupo que você simpatiza dentro do partido. Se você não está contente com os caminhos do FLAMENGO, FLUMINENSE, VASCO, BOTAFOGO..., associe-se ao clube e tente, no meio de milhares de sócios, encontrar aqueles com quem você tem compatibilidade de ideias. Só não me venha com o apedrejamento preguiçoso, mostrando para o mundo que você está alheio, inerte, não fazendo absolutamente nada para melhorar o que tanto te incomoda e te irrita.
Só com gritaria, sem ativismo, sem engajamento, sem atividade política, ninguém conseguirá borrar a foto que roubou a cena da RIO + 20.
terça-feira, 12 de junho de 2012
LIÇÕES DO MEU PRIMEIRO CARRO - ARTE OU DIREITO
Meu primeiro carro foi uma Brasília branca, modelo 1986, que comprei aos 18 anos, de um pintor de paredes. Para realizar o sonho, passei quatro meses juntando o percentual a que eu tinha direito da bilheteria do espetáculo teatral Confissões de Adolescente, onde desempenhava as funções de assistente de produção e de operador de luz. O carro era incrível, tinha um volante enorme, neon azul na parte interna, rádio AM e FM, e, no vidro traseiro, cinco estrelas, uma dentro da outra, que iam brilhando à medida que eu apertava o freio. Eu adorava lotar o carro de amigos e sair sem destino certo. Amava a liberdade de poder ir a qualquer canto sem depender de ninguém; de poder surfar na Prainha, depois ir para o ensaio no Tablado, e à noite me acabar nas festas de Santa Teresa. Quanta alegria aquele carrinho me dava!!!
Mas a compra do primeiro carro aconteceu justamente num período de grandes dúvidas: seguir no mundo das Artes, onde eu já estava desde os 9 anos (em cursos no Colégio Andrews, no Tablado, na Casa de Cultura Laura Alvim...) ou mergulhar na faculdade de Direito, na PUC/RJ (que me seduzia bastante, mas eu não tinha a mínima noção de como seria)? Pensando friamente, com a Arte eu já tinha conseguido comprar um carro, já estava vinculado à peça de maior sucesso no cenário teatral brasileiro da época e, se fosse pelo caminho do Direito, ainda teria que esperar até o sexto período para começar a estagiar e, mesmo assim, com o salário de estagiário, não conseguiria, em quatro meses, comprar uma Brasilia branca, modelo 1986, e ter a felicidade que eu tinha.
Não tomei nenhuma decisão precipitada. Comecei o curso de Direito tocando em paralelo minhas atividades teatrais. Ao invés de abrir mão da Arte pelo Direito, fui fazendo os dois, ao mesmo tempo, para ver o que iria acontecer. Acreditei que o destino se encarregaria de tomar, por mim, o caminho que ele achasse mais adequado.
E foi no segundo período da faculdade que dois fatos bem marcantes aconteceram, simultaneamente, um ná area das Artes e outro na do Direito (não foi bem na do Direito, como veremos adiante).
No campo da Arte, fui convidado para produzir um espetáculo com texto maravilhoso, elenco sublime, polpudo patrocínio e diretor experiente. Tudo para ser um super sucesso e claro que aceitei. No campo do Direito (na realidade está mais para o campo do amor do que para o do Direito), me apaixonei pela filha de um dos maiores juristas do Brasil, que era minha amiga de turma. Claro que dei em cima dela e a convidei para sair.
Os dois fatos acima foram bastante marcantes na minha vida porque extremamente decepcionantes.
Quanto à peça, por mais que todos acreditássemos no seu primor, a crítica de OGlobo, Barbara Heliodora detonou o espetáculo, fazendo com que nós experimentássemos um vergonhoso fracasso de público, acompanhado de grande prejuízo financeiro e de tempo. Até hoje me pergunto como é que pode a crítica achar horrível algo que eu acho muitíssimo bonito? Incompreensível. Mas, por conta disso, acabei pedindo estágio para o meu melhor professor, o de direito civil, Carlos Roberto Barbosa Moreira, e acabei me afastando dos palcos.
Já em relação à minha paixão, depois de beijos no Pilotis da PUC, trabalhos em grupo que viravam tardes de muito sexo, finalmente combinamos um jantar. Cheguei pontualmente ao belo edifício onde ela morava com os pais, pedi ao porteiro para que, pelo interfone (não existia celular naquela época) anunciasse minha presença. Quando ela desceu, muito maquiada, com um figurino de princesa, meio dourado, com bolsa dourada, com acessórios dourados, com luzes douradas no cabelo, a primeira coisa que ela disse, as gargalhadas, quando entrou no meu amado carrinho, comprado sem ajuda de papai, foi que eu devia estar de sacanagem, pois aquilo era uma lata velha.
Conclusão: eu amava uma espetáculo que a principal crítica teatral odiou e me empurrou para o Direito. Eu amava meu carro, mas a menina de quem eu estava gostando, abstraindo-se da maneira de como ela se vestia, tinha vergonha de entrar.
É justamente nessas horas da vida que você se pergunta quem está errado, se é você os outros? E como se deve reagir? ceder um pouco? mudar para agradar os outros ou seguir firme segundo seus valores e princípios, caminhando em direção ao que você acredita?
Não voltei a me encontrar com a aludida menina. Me senti, indevidamente, humilhado e optei por me afastar dela. Passei a tentar me ver do ponto de vista do outro, mas sempre seguir o que o meu coração manda. Me sinto mais feliz e aliviado assim, do que se eu me "vendesse" aos valores que são de terceiros e não meus.
Mas a compra do primeiro carro aconteceu justamente num período de grandes dúvidas: seguir no mundo das Artes, onde eu já estava desde os 9 anos (em cursos no Colégio Andrews, no Tablado, na Casa de Cultura Laura Alvim...) ou mergulhar na faculdade de Direito, na PUC/RJ (que me seduzia bastante, mas eu não tinha a mínima noção de como seria)? Pensando friamente, com a Arte eu já tinha conseguido comprar um carro, já estava vinculado à peça de maior sucesso no cenário teatral brasileiro da época e, se fosse pelo caminho do Direito, ainda teria que esperar até o sexto período para começar a estagiar e, mesmo assim, com o salário de estagiário, não conseguiria, em quatro meses, comprar uma Brasilia branca, modelo 1986, e ter a felicidade que eu tinha.
Não tomei nenhuma decisão precipitada. Comecei o curso de Direito tocando em paralelo minhas atividades teatrais. Ao invés de abrir mão da Arte pelo Direito, fui fazendo os dois, ao mesmo tempo, para ver o que iria acontecer. Acreditei que o destino se encarregaria de tomar, por mim, o caminho que ele achasse mais adequado.
E foi no segundo período da faculdade que dois fatos bem marcantes aconteceram, simultaneamente, um ná area das Artes e outro na do Direito (não foi bem na do Direito, como veremos adiante).
No campo da Arte, fui convidado para produzir um espetáculo com texto maravilhoso, elenco sublime, polpudo patrocínio e diretor experiente. Tudo para ser um super sucesso e claro que aceitei. No campo do Direito (na realidade está mais para o campo do amor do que para o do Direito), me apaixonei pela filha de um dos maiores juristas do Brasil, que era minha amiga de turma. Claro que dei em cima dela e a convidei para sair.
Os dois fatos acima foram bastante marcantes na minha vida porque extremamente decepcionantes.
Quanto à peça, por mais que todos acreditássemos no seu primor, a crítica de OGlobo, Barbara Heliodora detonou o espetáculo, fazendo com que nós experimentássemos um vergonhoso fracasso de público, acompanhado de grande prejuízo financeiro e de tempo. Até hoje me pergunto como é que pode a crítica achar horrível algo que eu acho muitíssimo bonito? Incompreensível. Mas, por conta disso, acabei pedindo estágio para o meu melhor professor, o de direito civil, Carlos Roberto Barbosa Moreira, e acabei me afastando dos palcos.
Já em relação à minha paixão, depois de beijos no Pilotis da PUC, trabalhos em grupo que viravam tardes de muito sexo, finalmente combinamos um jantar. Cheguei pontualmente ao belo edifício onde ela morava com os pais, pedi ao porteiro para que, pelo interfone (não existia celular naquela época) anunciasse minha presença. Quando ela desceu, muito maquiada, com um figurino de princesa, meio dourado, com bolsa dourada, com acessórios dourados, com luzes douradas no cabelo, a primeira coisa que ela disse, as gargalhadas, quando entrou no meu amado carrinho, comprado sem ajuda de papai, foi que eu devia estar de sacanagem, pois aquilo era uma lata velha.
Conclusão: eu amava uma espetáculo que a principal crítica teatral odiou e me empurrou para o Direito. Eu amava meu carro, mas a menina de quem eu estava gostando, abstraindo-se da maneira de como ela se vestia, tinha vergonha de entrar.
É justamente nessas horas da vida que você se pergunta quem está errado, se é você os outros? E como se deve reagir? ceder um pouco? mudar para agradar os outros ou seguir firme segundo seus valores e princípios, caminhando em direção ao que você acredita?
Não voltei a me encontrar com a aludida menina. Me senti, indevidamente, humilhado e optei por me afastar dela. Passei a tentar me ver do ponto de vista do outro, mas sempre seguir o que o meu coração manda. Me sinto mais feliz e aliviado assim, do que se eu me "vendesse" aos valores que são de terceiros e não meus.
terça-feira, 7 de junho de 2011
MINHA AVÓ E AS LIÇÕES DE UMA CAIXA DE BOMBONS
Reconheço que fui bastante ousado, ao final do enterro da minha avó, quando, logo após as orações, pedi a atenção das cerca de 100 pesoas presentes naquela tarde fria de Porto Alegre para prestarem as últimas homenagens àquela imigrante da Polônia, que, mesmo tendo desembarcado no Brasil (fugida da guerra) bem nova, nunca conseguiu aprender corretamente o português, mantendo um carregadíssimo sotaque até a morte, ocorrida com mais de 90 anos.
Minha fala não estava no script. Eu mesmo me assustei com o meu ímpeto; com a forte necessidade que me surgiu de revelar, publicamente, aquela que talvez tenha sido a grande lição deixada pela minha avó, e que eu demorei tantos anos para aprender.
A Minha família e os amigos respeitaram meu pedido, voltando os olhos atentos para mim, curiosos com o que eu iria dizer. Respirei fundo e, de improviso, soltei o que estva entalado no peito:
“Hoje, família e amigos se reúnem aqui para a despedida da minha avó, da minha querida bobele, como eu a chamava. Por motivos óbvios, hoje é um dia triste, mas fica o consolo, se é que existe algum consolo para a morte de um ente querido, de que estamos nos despedindo de uma pessoa que viveu muito mais do que a média. Confesso que, no meu caso, a tristeza se mistura com uma grande e vergonhosa dose de culpa, por dois motivos: primeiro porque, por morar no Rio de Janeiro, meu contato com a minha avó foi muito pequeno, resumido-se às férias escolares. Segundo, porque nos raros e rápidos momentos que pude desfrutar da companhia dela, cometi o gravíssimo erro de debochar do seu sotaque carregado, da sua fragilidade, do seu modo de falar português errado, da sua desconfiança das pessoas, das suas manias, e de não reconhecer o valor dos seus atos e ensinamentos. Lembro-me de que passei anos e anos avacalhando a minha avó porque, aos 8 ou 10 anos, ela surgiu no meu quarto com um saco plástico das Lojas Brasileiras dizendo: – Ricardiiinha ô vôvó trazer uma presente para você. Exultante, como toda criança que vai ganhar presente, pulei da cama, agarrei o saco que minha avó trazia nas mãos, retirei o pacote que havia lá dentro, rasguei o papel e... . Frustração. Não era brinquedo, mas uma caixa de bombons. Melhor que nada. Só que minha avó, e não eu, foi quem abriu a tampa da caixa, pedindo para mim o seguinte: – Tira uma bombom, quando você quiser outra bombom pede para ô vôvó, amanhà. Nova frustração. Ué!! Pensei eu, não é um presente para mim? A caixa de bombom não me pertence? Deveria ficar comigo. Deveria ser minha. Eu Deveria administrar meu presente e comer quantos bombons eu desejasse, na hora que eu bem entendesse. Passei anos, repito, avacalhando minha avó por conta desse fato, imaginando que ela era egoísta e turrona. Somente décadas mais tarde, quando eu já estava com os meus 30 anos, percebi que atrás daquele episódio da caixa de bombons existia uma sabedoria, com diversas lições importantes para a vida. Pois bem, minha avó perdeu toda a família na guerra. Minha avó imigrou, forçada, para um país com cultura, hábitos e língua diferentes das que ela estava acostumada. Minha avó foi obrigada a esconder a sua religião, por medo de perseguição. Minha avó ficou viúva. Minha avó não fez faculdade, mal frequentou o colégio. Assim, com tantas dificuldades, surge uma pergunta difícil de responder: com qual ânimo ou alegria uma pessoa que sofreu o que ela sofreu, consegue chegar aos 90 e poucos anos? Hoje, aqui nesse enterro, não existe uma só pessoa que tenha passado ou chegado perto dos apertos experimentados pela minha avó, mas eu garanto que 90% de vocês, me incluindo no grupo, reclamam da vida. Hoje eu entendo que minha avó só chegou aos 90 anos porque, apesar das dores, ela sempre manteve um desejo aceso, sempre manteve um bombom para o amanhã, para o dia seguinte. Hoje eu entendo que se eu comesse a caixa inteira de bombons, teria uma desagradável indigestão, perderia meu desejo, e a vida não teria graça. Por outro lado, fica a lição de que a vida, assim como uma caixa de bombons, oferece um cardápio com diversas oportunidades e, se formos afobados, não saberemos qual bombom escolher. Pior, na pressa de se salvar de medos invisíveis, corremos o risco de escolher o bombom errado e estragar todo o resto da nossa história. Reconheço, somente agora, que minha avó queria me ensinar uma das coisas mais difíceis da vida: o equilibrio, a prudência, a calma, o tão desejado caminho do meio. Ela queria me transmitir que desejos e afetos, por uma caixa de bombons, ou em todos os campos da vida, podem ser frustrados. E quase sempre são. Parece óbvio, mas não aceitamos que não temos ou podemos ter tudo aquilo que queremos. Por isso, hoje eu posso afirmar, sem qualquer medo de errar, que mesmo tendo passado por inúmeras dificuldades e privações, estamos nos despedindo de uma pessoa que foi muito além do esperado, de forma extremamante original e simples, conseguindo viver uma vida absolutamente feliz. Hoje aprendi que o segredo da alegria e da longevidade da minha avó está no fato de que ela compreendeu que o importante não é satisfazer o desejo, mas estar sempre desejando, até o fim da vida, o delicioso bombom que nos espera para ser devorado amanhã. Bobele, obrigado pela lição.”
sexta-feira, 6 de maio de 2011
HÉLIO CAMPISTA GOMES: "DIREITO PARA MIM É ROMANCE"
Como o fórum no Rio de Janeiro só abre às 11 hs da manhã, os advogados e estagiários têm por hábito chegar no escritório por volta das 9 hs, tempo suficientemente razoável para devolver ligações pendentes, checar e-mails e os processos que necessitarão de maiores cuidados naquele dia, e ainda tomar um café com os colegas, comentando o fla x flu da noite anterior.
Todas as vezes que por algum motivo tive que chegar mais cedo no escritório, lá pelas 7 hs, para terminar uma petição mais complicada, ou fazer o estudo de um caso novo, sempre encontrava o elegante e simpático Dr. HÉLIO CAMPISTA GOMES na sua sala lendo um livro, brasileiro ou estrangeiro, sobre algum tema de direito civil. Pensava comigo: esse renomado jurista, no alto dos seus 70 anos, que desfruta o estatus de ser o Consultor da banca com mais de 50 advogados, ainda tem ânimo de sempre chegar antes de todos e paciência para ler livros jurídicos!!
Um dia não me contive e tasquei essa: Dr. HÉLIO, o senhor já leu praticamente todos os livros de direito da biblioteca do escritório, quando eu estava preparando minha tese de mestrado, fui pesquisar no grosso livro do Karl Larenz (Jurista e filósofo alemão, nascido em 1903 e falecido em 1993, com uma vasta atividade científico-jurídica no campo do Direito Civil) e encontrei, na última página, escrito a lápis pelo senhor, o seguinte recado: Meus senhores, acreditem, li esse livro duas vezes, de fio a pavio. Meu deus - perguntei eu - Por que o Senhor não lê um romance? é muito mais emocionante do que a literatura jurídica ! O Dr. HÉLIO sorriu para mim e respondeu: Meu filho, direito para mim é romance. Fiquei sem ação, admirado com a paixão que aquele homem tinha pelo Direito.
Há meia hora, arrumando os livros da minha casa, encontrei uma edição antiga do Lições de Processo Civil do Barbosa Moreira, pai do meu mestre maior, CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA. Achei, inclusive, que ele tinha havia me dado aquele exemplar, mas ao olhar a dedicatória, na primeira página, lá estava escrito: Para o meu querido Ricardo, com a certeza de que ele não vai ler, um abraço do HÉLIO CAMPISTA GOMES.
Ai que saudade que eu tenho do HELIO!!!!
terça-feira, 3 de maio de 2011
Trecho de "Carta a D. - História de um amor", de André Gorz
"Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo, têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traître, passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver.
Por que, então, deixar de fora essa maravilhosa história de amor que nós tínhamos começado a viver sete anos antes? Por que eu não disse o que me fascinou em você? Por que eu a apresentei como uma coitadinha, "que não conhecia ninguém, não falava uma palavra de francês e que sem mim teria se destruído", se você tinha o seu círculo de amigos, fazia parte de um grupo de teatro de Lausanne e era esperada na Inglaterra por um homem determinado a se casar com você?
Na verdade, não explorei em profundidade aquilo a que me propunha ao escrever Le Traître. Para mim, ainda restam muitas questões a serem compreendidas e esclarecidas. Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.
Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda das inglesas.
Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção. Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando nossos olhares se cruzaram, eu pensei: "Não tenho chance nenhuma com ela". E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: "He is an Austrian Jew. Totally devoid of interest".
Um mês depois cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947.
Meu inglês era desajeitado, mas passável. Tinha se enriquecido graças a dois romances americanos que eu acabara de traduzir para a editora Marguerat. Durante essa nossa primeira saída, percebi que você havia lido um ito, antes e depois da guerra: Virginia Woolf, George Eliot, Tolstói, Platão...
Falamos de política britânica, das diferentes correntes dentro do Partido Trabalhista. De imediato, você já sabia distinguir entre o que é acessório e o que é essencial. Diante de um problema complexo, a decisão a tomar sempre lhe parecia óbvia. Você tinha uma confiança inabalável na justeza dos seus julgamentos.
De onde você tirava essa segurança? E, no entanto, você também teve pais separados; deixou-os cedo, um depois do outro; nos últimos anos da guerra, morou sozinha com Tabby, o seu gato, e dividia com ele a sua comida racionada. E, por fim, saiu do seu país para explorar outros mundos. Em que poderia lhe interessar um Austrian Jew sem um tostão?
Eu não entendia. Não sabia que ligações invisíveis se teciam entre nós. Você não gostava de falar do seu passado. Pouco a pouco, compreenderei que experiência fundadora nos tornou subitamente próximos um do outro.
Nos encontramos de novo. Fomos dançar mais uma vez. Vimos juntos Le Diable au corps, com Gérard Philipe. Há no filme uma seqüência em que a heroína pede ao sommelier para trocar uma garrafa de vinho já aberta e bem consumida porque, segundo ela, dava para sentir o gosto da rolha. Tentamos reeditar essa manobra numa boate, e o sommelier, depois de verificar, contestou o diagnóstico. Diante de nossa insistência, ele nos mandou às favas, com muita determinação: "Nunca mais ponham os pés aqui!". Fiquei espantado com o seu sangue-frio e a sua sem-cerimônia. Pensei comigo mesmo: "Fomos feitos para nos entendermos". Depois da terceira ou quarta saída, eu afinal beijei você.
Não tínhamos pressa. Eu despi o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura.
Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.
Durante as semanas que se seguiram, nos reencontramos quase todas as noites. Você dividiu comigo o velho sofazinho afundado que me servia de cama. Ele tinha apenas sessenta centímetros de largura, e nós dormíamos apertados, um contra o outro. Além do sofazinho, meu quarto só tinha uma estante de livros feita de tábuas e tijolos, uma mesa enorme, atulhada de papéis, uma cadeira e um fogareiro. Você não se espantava com o meu cenobitismo. Também não me espantava que você o aceitasse.
Antes de conhecê-la, eu nunca tinha passado mais de duas horas com uma moça sem ficar entediado e sem deixá-la saber que eu me sentia assim. O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. Os valores que dominaram a minha infância não existiam nele.
Esse mundo me encantava. Eu podia escapar ao entrar nele, sem obrigações nem pertencimento. Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo. Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar - a mim, que sempre rejeitei toda identidade e juntei uma identidade na outra, sem que nenhuma fosse realmente a minha. Falando com você em inglês, eu fazia minha a sua língua. Até hoje continuo a me dirigir a você em inglês, mesmo quando você responde em francês. O inglês, que eu conhecia principalmente por você e pelos livros, desde o início foi para mim uma língua particular que preservava a nossa intimidade contra a irrupção das normas sociais circundantes. Eu tinha a impressão de construir com você um mundo protegido e protetor.
A coisa não teria sido possível se você tivesse um sentimento forte de pertencimento nacional, de enraizamento na cultura britânica. Mas não. Você mantinha, em relação a tudo o que é british, uma distância crítica que não excluía a cumplicidade com o que lhe é familiar. Eu dizia que você era uma export only, ou seja, um desses produtos reservados só para exportação, não encontráveis nem na própria Grã-Bretanha.
Nós nos interessamos passionalmente pelo resultado das eleições na Grã-Bretanha, mas só porque o que estava em jogo era o futuro do socialismo, não o do Reino Unido. A pior injúria que alguém poderia lhe fazer era explicar pelo patriotismo o partido que você tomava.
Disso eu ainda teria bem mais tarde uma prova, durante a invasão das Malvinas pelas forças argentinas. A um ilustre visitante, que pretendia explicar pelo patriotismo o partido que você havia tomado, você respondeu com rudeza que só os imbecis não conseguiam ver que a Argentina levava aquela guerra adiante para lustrar o brasão de uma execrável ditadura militar e fascista, da qual, por fim, a vitória britânica precipitaria o desmoronamento.
Mas estou antecipando as coisas. Durante aquelas primeiras semanas, encantava-me a liberdade que você manifestava em relação à sua cultura de origem, mas também a substância dessa cultura, tal como ela lhe foi transmitida quando pequena. Uma certa maneira de zombar das provações mais sérias; um pudor travestido de humor, e mais particularmente as suas nursery rimes ferozmente non-sensical e sabiamente ritmadas. Por exemplo: "Three blind mice/ See how they run/ They all run after the farmer's wife/ Who cut off their tails with a carving knife/ Did you ever see such fun in your life/ as three blind mice?".
Eu queria que você me contasse a sua infância em sua realidade trivial. Eu soube que você cresceu na casa do seu padrinho, uma casa na praia, com jardim; com o Jock, o seu cachorro, que enterrava ossos nos canteiros e depois não mais conseguia encontrá-los; soube que seu padrinho tinha um receptor de rádio cujas pilhas precisavam ser recarregadas toda semana. Soube que você costumava quebrar o eixo do seu triciclo descen- do o meio-fio sem se levantar; que na escola você resolveu escrever com a mão esquerda, e se sentou sobre as duas mãos, desafiando a professora que insistia em forçá-la a escrever com a direita. Seu padrinho, que tinha autoridade, falou que a professora era uma imbecil e passou-lhe uma descompostura. Compreendi então que o espírito da seriedade e o respeito à autoridade seriam sempre estranhos a você.
Mas nada disso dá conta da ligação invisível pela qual nós nos sentimos unidos desde o início. Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original - há pouco eu falava de "experiência fundadora": a experiência da insegurança.
A natureza desta não era a mesma para você e para mim. Não importa: para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós. Nós tínhamos de assumir a nossa autonomia, e eu descobriria em seguida que você estava muito mais preparada para isso do que eu."
Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo, têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traître, passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver.
Por que, então, deixar de fora essa maravilhosa história de amor que nós tínhamos começado a viver sete anos antes? Por que eu não disse o que me fascinou em você? Por que eu a apresentei como uma coitadinha, "que não conhecia ninguém, não falava uma palavra de francês e que sem mim teria se destruído", se você tinha o seu círculo de amigos, fazia parte de um grupo de teatro de Lausanne e era esperada na Inglaterra por um homem determinado a se casar com você?
Na verdade, não explorei em profundidade aquilo a que me propunha ao escrever Le Traître. Para mim, ainda restam muitas questões a serem compreendidas e esclarecidas. Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.
Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda das inglesas.
Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção. Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando nossos olhares se cruzaram, eu pensei: "Não tenho chance nenhuma com ela". E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: "He is an Austrian Jew. Totally devoid of interest".
Um mês depois cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947.
Meu inglês era desajeitado, mas passável. Tinha se enriquecido graças a dois romances americanos que eu acabara de traduzir para a editora Marguerat. Durante essa nossa primeira saída, percebi que você havia lido um ito, antes e depois da guerra: Virginia Woolf, George Eliot, Tolstói, Platão...
Falamos de política britânica, das diferentes correntes dentro do Partido Trabalhista. De imediato, você já sabia distinguir entre o que é acessório e o que é essencial. Diante de um problema complexo, a decisão a tomar sempre lhe parecia óbvia. Você tinha uma confiança inabalável na justeza dos seus julgamentos.
De onde você tirava essa segurança? E, no entanto, você também teve pais separados; deixou-os cedo, um depois do outro; nos últimos anos da guerra, morou sozinha com Tabby, o seu gato, e dividia com ele a sua comida racionada. E, por fim, saiu do seu país para explorar outros mundos. Em que poderia lhe interessar um Austrian Jew sem um tostão?
Eu não entendia. Não sabia que ligações invisíveis se teciam entre nós. Você não gostava de falar do seu passado. Pouco a pouco, compreenderei que experiência fundadora nos tornou subitamente próximos um do outro.
Nos encontramos de novo. Fomos dançar mais uma vez. Vimos juntos Le Diable au corps, com Gérard Philipe. Há no filme uma seqüência em que a heroína pede ao sommelier para trocar uma garrafa de vinho já aberta e bem consumida porque, segundo ela, dava para sentir o gosto da rolha. Tentamos reeditar essa manobra numa boate, e o sommelier, depois de verificar, contestou o diagnóstico. Diante de nossa insistência, ele nos mandou às favas, com muita determinação: "Nunca mais ponham os pés aqui!". Fiquei espantado com o seu sangue-frio e a sua sem-cerimônia. Pensei comigo mesmo: "Fomos feitos para nos entendermos". Depois da terceira ou quarta saída, eu afinal beijei você.
Não tínhamos pressa. Eu despi o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura.
Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.
Durante as semanas que se seguiram, nos reencontramos quase todas as noites. Você dividiu comigo o velho sofazinho afundado que me servia de cama. Ele tinha apenas sessenta centímetros de largura, e nós dormíamos apertados, um contra o outro. Além do sofazinho, meu quarto só tinha uma estante de livros feita de tábuas e tijolos, uma mesa enorme, atulhada de papéis, uma cadeira e um fogareiro. Você não se espantava com o meu cenobitismo. Também não me espantava que você o aceitasse.
Antes de conhecê-la, eu nunca tinha passado mais de duas horas com uma moça sem ficar entediado e sem deixá-la saber que eu me sentia assim. O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. Os valores que dominaram a minha infância não existiam nele.
Esse mundo me encantava. Eu podia escapar ao entrar nele, sem obrigações nem pertencimento. Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo. Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar - a mim, que sempre rejeitei toda identidade e juntei uma identidade na outra, sem que nenhuma fosse realmente a minha. Falando com você em inglês, eu fazia minha a sua língua. Até hoje continuo a me dirigir a você em inglês, mesmo quando você responde em francês. O inglês, que eu conhecia principalmente por você e pelos livros, desde o início foi para mim uma língua particular que preservava a nossa intimidade contra a irrupção das normas sociais circundantes. Eu tinha a impressão de construir com você um mundo protegido e protetor.
A coisa não teria sido possível se você tivesse um sentimento forte de pertencimento nacional, de enraizamento na cultura britânica. Mas não. Você mantinha, em relação a tudo o que é british, uma distância crítica que não excluía a cumplicidade com o que lhe é familiar. Eu dizia que você era uma export only, ou seja, um desses produtos reservados só para exportação, não encontráveis nem na própria Grã-Bretanha.
Nós nos interessamos passionalmente pelo resultado das eleições na Grã-Bretanha, mas só porque o que estava em jogo era o futuro do socialismo, não o do Reino Unido. A pior injúria que alguém poderia lhe fazer era explicar pelo patriotismo o partido que você tomava.
Disso eu ainda teria bem mais tarde uma prova, durante a invasão das Malvinas pelas forças argentinas. A um ilustre visitante, que pretendia explicar pelo patriotismo o partido que você havia tomado, você respondeu com rudeza que só os imbecis não conseguiam ver que a Argentina levava aquela guerra adiante para lustrar o brasão de uma execrável ditadura militar e fascista, da qual, por fim, a vitória britânica precipitaria o desmoronamento.
Mas estou antecipando as coisas. Durante aquelas primeiras semanas, encantava-me a liberdade que você manifestava em relação à sua cultura de origem, mas também a substância dessa cultura, tal como ela lhe foi transmitida quando pequena. Uma certa maneira de zombar das provações mais sérias; um pudor travestido de humor, e mais particularmente as suas nursery rimes ferozmente non-sensical e sabiamente ritmadas. Por exemplo: "Three blind mice/ See how they run/ They all run after the farmer's wife/ Who cut off their tails with a carving knife/ Did you ever see such fun in your life/ as three blind mice?".
Eu queria que você me contasse a sua infância em sua realidade trivial. Eu soube que você cresceu na casa do seu padrinho, uma casa na praia, com jardim; com o Jock, o seu cachorro, que enterrava ossos nos canteiros e depois não mais conseguia encontrá-los; soube que seu padrinho tinha um receptor de rádio cujas pilhas precisavam ser recarregadas toda semana. Soube que você costumava quebrar o eixo do seu triciclo descen- do o meio-fio sem se levantar; que na escola você resolveu escrever com a mão esquerda, e se sentou sobre as duas mãos, desafiando a professora que insistia em forçá-la a escrever com a direita. Seu padrinho, que tinha autoridade, falou que a professora era uma imbecil e passou-lhe uma descompostura. Compreendi então que o espírito da seriedade e o respeito à autoridade seriam sempre estranhos a você.
Mas nada disso dá conta da ligação invisível pela qual nós nos sentimos unidos desde o início. Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original - há pouco eu falava de "experiência fundadora": a experiência da insegurança.
A natureza desta não era a mesma para você e para mim. Não importa: para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós. Nós tínhamos de assumir a nossa autonomia, e eu descobriria em seguida que você estava muito mais preparada para isso do que eu."
CAIXOTE AZUL
Raul deixou escorrer pelo pescoço algumas gotas do velho perfume “Paco Rabane” e, de frente para o espelho, para conseguir enxergar o vigoroso homem de outrora, tentou abstrair-se das marcas que o tempo havia talhado no seu rosto. Deu o retoque final na gola da camisa que havia comprado especialmente para aquela ocasião: uma tradicional “Lacoste” azul. Eram 14hs e ele estava pronto.
Soltou uma gutural gargalhada nada compatível com um homem que teve a vida marcada por uma desagradável sucessão de desencontros afetivos. Estava com 65 anos mas aparentava 50 e, há poucos meses, chegara à desagradável constatação de que estava envelhecendo solitariamente. Vivera movido pelo amor, casou-se, teve filhos e enviuvou de uma mulher que, muito embora ele tenha gostado bastante, não foi a que mais amou.
Quem o conhecia jamais diria que ele era um camarada solitário, porque sabe-se que homens irreverentes, criativos e cultos sempre têm uma boa companhia. Além do mais, ele era um grande conhecedor da alma humana e seu discurso fascinava.
Naquele dia, ele pôs em prática, com ajuda do Custódio, o garçom que testemunhou inúmeras de suas patuscadas ¾ e há algum tempo se esforçava em devolver o bom humor ao amigo ¾, uma brincadeira que trouxe grande confusão ao já confuso centro da cidade. Ele fez publicar, na primeira página de todos os jornais cariocas, somente pela farra de ver o que aconteceria, o anúncio que dizia: “sou empresário, bem posicionado, tenho 38 anos, e estou interessado em conhecer uma mulher na minha faixa de idade que esteja disposta a um relacionamento sério. Hoje, as 16:00 hs, estarei na confeitaria Colombo com um caixote azul, as interessadas em me conhecer deverão comparecer com um caixote rosa”.
Se um dia fosse indagado do porquê dos caixotes, Raul responderia que sua intenção era a de materializar, numa espécie de depósito, todos os sentimentos pendentes ou mal resolvidos que cada pessoa acumula por toda a vida.
Chegou à confeitaria uma hora adiantado. Custódio rapidamente o instalou numa mesa de dois lugares, ao fundo, em cima de um tablado de onde se podia ter uma visão privilegiada da entrada. Devidamente acomodado, pediu um chá de camomila para tentar diminuir a gostosa ansiedade que lhe tomara, semelhante com a dos moleques que receiam ter sua traquinagem descoberta.
Mesmo sabendo que o amigo tinha a intenção de ficar no anonimato, Custódio, de implicância, por detrás do balcão, ergueu um caixote azul que disse ter separado para a eventualidade de surgir uma mulher interessante. Custódio desejava, desde os preparativos iniciais daquele estranho espetáculo, na hipótese de aparecer alguma mulher escandidamente bela, entregar-lhe um caixote azul contendo a verdadeira identidade do amigo e ajudá-lo a sair da solidão. Esta idéia foi veementemente proibida por Raul que, àquela altura, começava a sentir medo dos desdobramentos da sua insólita brincadeira.
Agora, no entanto, era tarde para qualquer pudor, o espetáculo já se iniciara.
As 15hs uma equipe de repórteres chegou à confeitaria. Custódio os recebeu e soube que estavam ali para desvendar a identidade do irreverente sedutor que havia pago por aquele inédito classificado. As 15:40hs, duas mulheres, de uma feiura medonha, começaram a zanzar pela porta da confeitaria, cada uma com um pequeno caixote rosa na mão. Várias outras mulheres foram chegando, algumas bem vestidas, outras bem vulgares, todas com seu caixote rosa sendo displicentemente carregado. Custódio, fingindo estar servindo mais água para o chá de Raul, curvou-se para perto do ouvido do amigo e desabafou: “Eu falei para tirar o 'bem posicionado' do anúncio, são todas umas putas".
Na ausência do principal alvo de sua entrevista, os repórteres atacaram as pretendentes. Estas, por sua vez, deixavam-se fotografar sem qualquer cerimônia e, pelas respostas oferecidas aos entrevistadores, constatou-se que Custódio havia formado um errado juízo das candidatas. Parecia, realmente, que elas não estavam ali por dinheiro, ao contrário, mostravam-se carentes de afeto, de paixão, de sentirem-se amadas com a mesma intensidade que as personagens dos filmes.
Atônito com as proporções que sua brincadeira havia tomado, Raul começou a fazer uma auto-análise e a concluir que: o solitário é um despudorado que aceita qualquer convite que possa livrá-lo do deserto que o aflige. Muita gente boa, para dar um basta na sua solidão, já tomou espantosas decisões: mudaram de país; tomaram anabolizante, tiveram um filho; aceitaram, depois de velho, o convite para uma relação gay; largaram a família para retomar uma paixão do passado... Há, até, quem tenha depositado as esperanças do fim da sua solidão numa guerra; na compra de um carro importado zerinho; na acumulação de muito dinheiro e poder; no suicídio. Porque, então, eu não poderia fazer aquela brincadeira para tentar, por algumas horas, viver algo mais divertido do que a solidão?
De repente, um grande alvoroço se formou. Dois homens, simultaneamente, um bem jovem e o outro de mais idade, surgiram exibindo caixotes azuis. Ensandecidas, as mulheres os cercaram e iniciaram uma grande briga com os repórteres, que queriam entrevistá-los antes que qualquer pessoa deles se aproximasse. Raul e Custódio sentiram um estranho prazer com aquela mixórdia em frente à confeitaria. Este prazer aumentou ainda mais, quando os falsos anunciantes foram desmascarados. O mais velho, de forma arrogante, alegou possuir os recibos que os jornais haviam lhe dado quando do pagamento pelos anúncios, mas não os apresentou e perdeu a confiança de todos. O mais novo, por sua vez, disse que era o verdadeiro anunciante porque o classificado deixava claro que o homem em questão tinha 38 anos. Como não aparentava ter mais do que 17 anos, ninguém acreditou no seu papo furado. Começou um empurra empurra entre os dois, e a coisa só não ficou mais séria porque a polícia interveio deslocando a confusão da calçada para a delegacia.
Após este episódio, iniciou uma chuvinha miúda que dispersou a todos. As mulheres, repórteres, curiosos e o próprio gerente da confeitaria, que não chegou a desconfiar da participação de Custódio naquele episódio, concluíram que tudo não passara de um trote e voltaram para suas tarefas.
Vitorioso, mas retornando para sua solidão, Raul pôde degustar sua última xícara de chá. Tinha o semblante sério, mas sorria por dentro. Com exceção de Custódio, ninguém jamais poderia saber que ele tinha criado tal divertimento, às custas da boa fé de tantas pessoas.
Nada mais o prendia ali, e decidiu ir embora. Antes, contudo, de olhar o valor da conta que já estava sobre a mesa, ele foi surpreendido por uma visão que acelerou sua respiração, e fez seu coração dar, num único segundo, mil voltas dentro do peito. Chegou a cogitar que aquela imagem era um castigo divino pela brincadeira de mau gosto com as moças que passaram por ali com caixotes rosas. Não era crível que, depois de tantos anos de saudade contida, a mulher que ele mais amou na vida, e que havia sumido pelo mundo há mais de 35 anos, estava ali, parada na porta da Confeitaria Colombo, ressurgida sabe-se lá de onde, e muito bonita, muito viva e brilhante... Raul, com muita aflição, procurou por Custódio, mas não o encontrou. Como um adolescente, encolheu-se entre a mesa e sua cadeira para, de soslaio, ficar observando o que ela iria fazer. A imagem daquela mulher lhe trouxe à memória a lembrança dos dias mais felizes de sua vida. Mesmo sem conseguir reagir diante da catarse de sentimentos ocasionado pela aparição daquela mulher, Raul, com muita precisão, relembrou do gosto da sua pele, do seu cheiro, das vezes mais marcantes que se amaram e, principalmente, do seu olhar afetuoso e da grande cumplicidade que tiveram enquanto juntos.
Raul não sabia se acenava ou se deixava ela encontrar a pessoa por quem procurava. Tomou coragem, levantou-se e fixou seus olhos nos olhos dela que, muito séria, mas com a mesma ternura de anos atrás, também fixou seus olhos nos dele. Infinitos sentimentos foram trocados por ambos durante aquele infinito olhar. Raul, que não estava preparado para encontrá-la, ousou fazer um pequeno gesto a convidando para sentar-se. Ela esboçou um tímido sorriso, respirou fundo e, bem devagar, parecendo estar com tanto medo quanto ele, sentou-se à mesa. Tentando agir naturalmente, de forma que ela não notasse que sua presença o deixava alterado, Raul realizou que o tempo é fictício para os assuntos dos sentimentos e que ele amava aquela mulher mais do que qualquer outra coisa no mundo. Admirando o rosto de Raul, trêmula como uma adolescente que dá seu primeiro beijo, ela abriu sua pequena bolsinha, tirando de dentro um caixotinho rosa em forma de coração, e colocado-o sobre a mesa. Raul percebeu que deveria abri-lo, e no conteúdo da caixa, encontrou um bilhete que dizia: “Desculpe-me pelo desencontro de nossas vidas. Sempre te amei”.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Mulhere(s), Filho(s) e Uma Dúvida.
Virou lugar comum qualquer jogador, comportado ou não, após marcar o gol, sair correndo triunfante para perto de uma câmera de TV e, em close, fazer uma homenagem para sua mulher e filhos, beijando ou aliança, ou as tatuagens com os nomes dos rebentos que ele carrega espalhadas pelo corpo.
A menos que o massiço noticiário esportivo esteja me enganando, o que se lê, com raríssimas exceções, é que os jogadores, além da mulher titular, "a de fé", como dizem, eles têm várias outras e geralmente acabam lhes dando filhos não programados. Ronaldinho não é casado, mas tem um filho fruto de um breve encontro amoroso. Ronaldo "O Fenômeno" também tem um filho que apareceu quando ele já estava casado.
Cada um faz da sua vida o que bem entender, não tenho o direito, nem quero julgar ou estabelecer qualquer juízo de valor a respeito da vida privada e das atitudes dos jogadores, das suas mulheres "de fé" e amantes. Mas uma dúvida não me escapa: será que o goleador, quando beija a aliança, desenha o sinal do coração com as mãos, faz a mímica de estar balançando um bebê no ar, ele está homenageando todas as mulheres e filhos que têm, o só aquelas e aqueles "que são de fé'?
NUMA SEXTA-FEIRA QUALQUER...
Naquela sexta, meus amigos fizeram o seguinte: Marcelo foi arrastado por uma estagiária para uma festa à fantasia. Lúcia, que tinha combinado de ir beber e escutar música na casa de amigos, acabou indo jantar com os avós e depois voltou para casa. Fábio estava jogando baralho no Country Club, mas, depois da quinta rodada, foi, com os demais jogadores, dançar forró na Feira de São Cristóvão. Já Anita, coitada, só conseguiu levantar do cochilo preparatório para encarar a noite lá pelas quatro horas da manhã, mas, mesmo assim, saiu de carro para ver o movimento nas portas das boates. Quando todos retornaram para suas casas, ficaram horas e horas na Internet; seja navegando pelas mais inusitadas páginas, seja conversando com um estranho protegidos por um apelido.
Conheço pessoas que adorariam jogar pedra na Internet se a vissem passeando na rua. Conheço também os que a endeusam e conseguem ter orgasmos com ela. Os que a odeiam falam que ela é alienante, elitista e insensível, porque o conhecimento por ela adquirido é virtual, aparente, e não chegaria aos pés do conhecimento alcançado através do contato real. Não posso deixar de concordar com esta ponderação. Por outro lado, não se pode menosprezar o prazer do internauta que, da sua casa ou escritório, compra ingressos para espetáculos, mexe na sua conta bancária, faz pesquisas acadêmicas…
¾ Bel, é você?
¾ É..., quem é?
¾ Você vai achar uma grande loucura, mas quem está falando é o Paulo. A última vez que nos vimos foi em 1980, no colégio
¾ Paulinho!!?? O meu Paulinho? ¾ disse ela com uma mistura de espanto e ternura ¾ Meu Deus, quanto tempo!! Como é que você me encontrou?
Sorrindo bastante ¾ Lembro, é claro.
¾ Daí me bateu a curiosidade de saber o que a vida tinha feito de você. Descobri o seu nome no site de uma galeria de arte, liguei para lá dizendo que era um repórter brasileiro interessado em fazer uma matéria com você, e eles me deram seu número…
DEFINIÇÃO
bagaceiro
Significado de Bagaceiro
adj (bagaço+eiro) 1 Que come bem o bagaço. 2 Diz-se do indivíduo que vive na ralé. sm 1 Removedor do bagaço. 2 Lugar onde se junta o bagaço da cana-de-açúcar. 3 Indivíduo indolente, malandro. 4 gír Trabalhador sem classificação, carregador de malas de viajantes. B.-seco: condutor de bagaço seco da bagaceira para a fornalha, nos banguês. B.-verde: condutor de bagaço verde da moenda para a bagaceira, onde seca, nos banguês.
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